Método 360°

Método Essência e Movimento 360°: Fundamentos Teóricos e Conceituais

Beatriz Estellita · Junho de 2025 · 18 min de leitura

O Método Essência e Movimento 360® nasceu de uma observação recorrente em ambientes organizacionais: pessoas tecnicamente capacitadas, mas com dificuldades nas relações, nas decisões e no alinhamento entre o que pensavam, sentiam e faziam. Profissionais que dominavam suas funções, mas sofriam com a distância entre seus valores e suas práticas cotidianas.

Essa observação gerou uma pergunta central, que se tornou o núcleo do método: por que abordagens pontuais e fragmentadas de desenvolvimento não produzem mudanças duradouras nas pessoas e nas organizações?

A resposta que sustenta toda a arquitetura do método é clara: o ser humano é um sistema vivo e integrado. Não é possível desenvolver habilidades de comunicação sem tocar em valores. Não é possível trabalhar a tomada de decisão sem compreender a identidade. Não é possível transformar hábitos sem antes entender as crenças que os sustentam.

É nesse contexto que nasce o Método Essência e Movimento 360: como uma proposta de desenvolvimento humano sistêmico, integrador e aplicável ao ambiente organizacional, capaz de produzir transformações ao mesmo tempo profundas e sustentáveis.

1. Desenvolvimento humano no contexto organizacional

Para compreender a proposta do método, é fundamental entender o que significa desenvolver pessoas dentro das organizações modernas.

Diferentemente das ciências exatas, o comportamento humano não admite fórmulas com resultados previsíveis. A individualidade de cada pessoa impede generalizações simplistas (ROBBINS, 2005). É essa complexidade que torna o desenvolvimento humano nas organizações um campo ao mesmo tempo desafiador e indispensável.

Historicamente, o entendimento sobre o papel das pessoas nas organizações passou por transformações profundas. Da produção em série de Henry Ford (1863-1947) à administração científica de Frederick Taylor (1856-1917), a preocupação central era a produtividade e o trabalhador era tratado como uma engrenagem do sistema. Somente a partir dos estudos de Elton Mayo (1880-1949) e do movimento das Relações Humanas, na década de 1930, ficou demonstrado que aspectos sociais e psicológicos impactam diretamente o desempenho.

Hoje esse entendimento avançou muito. Chiavenato (2014) afirma que a única forma de as organizações garantirem que os desafios do futuro sejam superados está diretamente ligada à capacidade de gerir e desenvolver pessoas de forma contínua. Para Feldman (2013), o campo do desenvolvimento humano se concentra no estudo científico dos processos sistemáticos de mudança e estabilidade que ocorrem nas pessoas.

A motivação ocupa papel central nesse processo. O comportamento humano é fundamentalmente movido por motivações internas e externas (CHIAVENATO, 2003), e gestores que não compreendem os fatores motivacionais de suas equipes tendem a enfrentar queda de produtividade, aumento de turnover e custos crescentes com reposição de talentos.

O desenvolvimento humano nas organizações, portanto, não é uma prática acessória. É condição estrutural para que as organizações possam se sustentar, evoluir e prosperar em ambientes de constante mudança.

2. Limitações das abordagens tradicionais de desenvolvimento

Apesar do crescente investimento em programas de treinamento e desenvolvimento, grande parte dessas iniciativas ainda apresenta caráter pontual e fragmentado, o que limita sua capacidade de produzir mudanças estruturais e duradouras.

Bruni, Turrioni e Stano (2005) observam que, embora as organizações reconheçam a importância do desenvolvimento de competências individuais, muitas ainda apresentam dificuldades em transformar iniciativas de treinamento em processos efetivos de aprendizagem organizacional. A razão central está na ausência de uma visão integradora do ser humano nos programas oferecidos.

Argyris e Schön (1978) identificaram dois tipos de aprendizagem organizacional que ajudam a entender essa limitação:

A maioria das abordagens tradicionais opera apenas no circuito simples: treina comportamentos específicos sem tocar nas crenças, valores e padrões relacionais que os produzem. O resultado é previsível: mudanças temporárias que se dissipam rapidamente ao retornar ao ambiente organizacional.

Essa lacuna entre o que as abordagens tradicionais oferecem e o que as pessoas e organizações realmente precisam é o ponto de partida da proposta sistêmica do Método Essência e Movimento 360®.

3. A necessidade de uma abordagem sistêmica

A resposta às limitações das abordagens tradicionais está na adoção de uma perspectiva sistêmica do desenvolvimento humano, aquela que considera o indivíduo não como um conjunto de habilidades isoladas, mas como um sistema vivo, integrado e em constante interação com seu ambiente.

Peter Senge, em A Quinta Disciplina, defende a necessidade urgente de resgatar nossa capacidade de ver o mundo como um sistema de forças entrelaçadas. Desde cedo, aprendemos a separar e dividir os problemas para torná-los mais manejáveis, mas ao fazer isso frequentemente perdemos a capacidade de enxergar as consequências sistêmicas de nossas ações.

Quando desenvolvemos pensamento sistêmico, nos tornamos capazes de identificar padrões de comportamento e não apenas eventos isolados, compreender como nossas ações influenciam o sistema ao redor e aprender de forma contínua, tanto individualmente quanto coletivamente.

Senge também descreve o Domínio Pessoal como a primeira das cinco disciplinas: aquela que inicia a jornada sistêmica. Ela implica esclarecer continuamente o que é importante para nós e enxergar com mais clareza a realidade do momento presente. Isso revela algo fundamental: a abordagem sistêmica começa no indivíduo. Antes de qualquer intervenção organizacional, é preciso que as pessoas desenvolvam consciência sobre si mesmas.

"Uma visão genuína gera excelência e aprendizagem porque as pessoas da organização querem se empenhar por suas metas." (SENGE, 2013)

Quando essa visão sistêmica é internalizada e compartilhada, os objetivos organizacionais deixam de ser imposições externas e passam a ser extensões dos objetivos pessoais de cada colaborador. Cria-se, então, uma sinergia que nenhum treinamento isolado consegue produzir.

É sobre essa base que o Método Essência e Movimento 360® está construído: a compreensão de que o desenvolvimento humano efetivo começa no autoconhecimento, se expande nas relações e se consolida nas práticas, e que esses três movimentos precisam acontecer de forma integrada.

4. Fundamentos filosóficos e epistemológicos do método

O Método Essência e Movimento 360® não se apoia apenas em referenciais da psicologia organizacional e das ciências do comportamento. Sua base é mais ampla e se ancora em tradições filosóficas que dizem respeito à natureza do ser humano e ao processo de construção de sua identidade.

4.1 O existencialismo de Sartre e a construção da identidade

Jean-Paul Sartre propõe que "a existência precede a essência": o ser humano não nasce com uma identidade previamente determinada, mas a constrói continuamente por meio de suas escolhas, experiências e ações no mundo (SARTRE, 2014).

Essa perspectiva tem implicações profundas para o desenvolvimento humano: ela situa o indivíduo como agente ativo de sua própria formação, e não como produto passivo de suas circunstâncias. Para o método, isso significa que trabalhar a "essência" de uma pessoa é trabalhar com aquilo que ela vem construindo ao longo de sua trajetória: suas escolhas, seus valores, suas formas de se relacionar e de agir.

4.2 A busca de sentido em Viktor Frankl

Viktor Frankl, fundador da Logoterapia, acrescenta outra camada fundamental: a busca por sentido como principal motivação da existência humana. Quando o indivíduo encontra sentido naquilo que faz, é capaz de suportar as maiores adversidades e de mobilizar energia para a ação com uma qualidade diferente: não por obrigação, mas por significado (FRANKL, 2008).

No contexto organizacional, essa perspectiva se traduz na seguinte premissa: o desenvolvimento humano que não conecta o indivíduo ao seu propósito essencial não produz engajamento genuíno. Pode gerar conformidade, mas não comprometimento.

4.3 A psicologia humanista de Carl Rogers

Carl Rogers e a tradição humanista da psicologia contribuem com o conceito de tendência atualizante: a propensão natural do ser humano ao crescimento, ao desenvolvimento e à autorrealização. Para Rogers, esse processo depende de condições de aceitação, autenticidade e compreensão empática (ROGERS, 1997).

O método herda dessa tradição a compreensão de que o desenvolvimento humano não é algo que se impõe de fora, mas algo que se facilita, criando condições para que cada indivíduo possa acessar e expandir seu próprio potencial.

4.4 O pensamento complexo de Edgar Morin

Edgar Morin, com o paradigma da complexidade, oferece uma perspectiva epistemológica que fundamenta a visão sistêmica do método. Para Morin, os fenômenos humanos não podem ser compreendidos pela lógica da simplificação e da redução: eles exigem uma abordagem que acolha a incerteza, a contradição e a multidimensionalidade (MORIN, 2003).

Essa perspectiva sustenta um dos princípios centrais do método: o ser humano não pode ser desenvolvido por partes. Qualquer fragmentação do processo de desenvolvimento empobrece e distorce o resultado.

5. O conceito 360°: uma visão integral do ser humano

O nome do método não é apenas uma metáfora de amplitude. O conceito de 360 graus representa um modelo de compreensão do ser humano a partir de três dimensões fundamentais e interdependentes:

Quadro 1 – As três dimensões do Método Essência e Movimento 360°

Dimensão Foco O que desenvolve
Interna Autopercepção e valores Identidade, propósito, valores inegociáveis, limites pessoais e consciência sobre padrões de comportamento.
Relacional Interação com outros Comunicação, qualidade das relações, gestão de conflitos, influências do ambiente e vínculos profissionais.
Prática Decisões e comportamentos Hábitos, rotinas, processo decisório, consistência entre intenção e ação, e maturidade profissional.

Fonte: elaboração própria, a partir de contribuições da psicologia humanista, filosofia existencial e comportamento organizacional.

Essas três dimensões não funcionam de maneira linear ou hierárquica: elas se alimentam mutuamente em um movimento contínuo. Quando a pessoa começa a se conhecer em sua totalidade, como um sistema orgânico, ela percebe que não é definida pelo que acontece externamente, mas sim por como interpreta e responde a esse exterior. Essa capacidade interpretativa depende diretamente do nível de autoconhecimento, e é o que o método busca, sistematicamente, ampliar.

O 360° representa, portanto, não apenas uma visão abrangente, mas uma visão integral: aquela que reconhece que nenhuma das três dimensões pode ser desenvolvida plenamente sem as demais.

6. Os sete pilares: estrutura central do método

O Método Essência e Movimento 360® organiza o desenvolvimento humano a partir de sete pilares interdependentes, que representam dimensões centrais da experiência humana. Esses pilares não são módulos isolados nem etapas sequenciais: são vetores sistêmicos que atuam simultaneamente, cada um iluminando um aspecto do ser humano e, ao mesmo tempo, influenciando e sendo influenciado pelos demais.

A estrutura em sete pilares foi construída a partir da convergência entre três tradições do conhecimento:

6.1 Pilar 1: Essência & Propósito

O primeiro pilar parte da pergunta mais fundamental que um ser humano pode fazer a si mesmo: quem sou eu e para que estou aqui? É o pilar que trabalha com a identidade, o autoconhecimento e o sentido que orienta a trajetória pessoal e profissional.

Carl Rogers propôs que o ser humano possui uma tendência natural à autorrealização e que o autoconhecimento é a condição necessária para que esse processo ocorra. Sem clareza sobre quem se é, o indivíduo tende a agir a partir de referências externas como expectativas sociais, padrões organizacionais e aprovação dos outros, o que frequentemente gera inconsistência, insatisfação e sensação de vazio (ROGERS, 1997).

Sartre complementa ao afirmar que a identidade é construída: ela não é dada, mas conquistada por meio de escolhas conscientes e experiências vividas (SARTRE, 2014). Viktor Frankl acrescenta a dimensão do sentido: não basta conhecer quem se é; é necessário compreender o porquê de estar onde se está e o que torna essa trajetória significativa (FRANKL, 2008).

"O ser humano que não tem clareza sobre sua essência tende a ser conduzido pelas circunstâncias, em vez de conduzi-las."

No contexto organizacional, colaboradores com clareza sobre propósito e identidade apresentam maior engajamento genuíno, maior capacidade de priorização, maior tolerância às pressões cotidianas e maior senso de responsabilidade pelo resultado do próprio trabalho.

6.2 Pilar 2: Limites & Influências

O segundo pilar trabalha com a consciência das forças internas e externas que moldam o comportamento humano. Todo indivíduo existe dentro de sistemas de influência: familiares, culturais, organizacionais, relacionais. A questão não é se essas forças existem, mas se o indivíduo tem consciência sobre elas, e se essa consciência lhe permite agir com mais autonomia e responsabilidade.

Kurt Lewin, com sua teoria de campo, demonstrou que o comportamento humano não é determinado apenas por características individuais, mas pela interação entre o indivíduo e as forças do ambiente em que está inserido (LEWIN, 1951). Albert Bandura aprofundou essa compreensão ao demonstrar que comportamentos são amplamente aprendidos por meio da observação e da interação social, o que significa que somos constantemente moldados pelo que nos rodeia, muitas vezes sem perceber (BANDURA, 1977).

Edgar Schein acrescentou que a cultura organizacional exerce uma influência profunda e muitas vezes invisível sobre percepções, valores e comportamentos. As pessoas não percebem que estão sendo moldadas pela cultura: simplesmente agem de acordo com ela (SCHEIN, 2009).

O desenvolvimento desse pilar implica aprender a distinguir o que é genuinamente seu do que é herança de sistemas externos, e a partir dessa distinção, estabelecer limites claros com o ambiente, com as relações e consigo mesmo, que permitam uma atuação mais autêntica e consciente.

6.3 Pilar 3: Pedestais & Valores Inegociáveis

Valores não são palavras em um cartaz corporativo. São princípios profundos que orientam, de forma muitas vezes inconsciente, as decisões e os comportamentos das pessoas. Quando um indivíduo desconhece ou ignora seus próprios valores, tende a tomar decisões incoerentes, e essa incoerência gera conflito interno, desgaste relacional e perda de credibilidade.

Shalom Schwartz propôs uma teoria abrangente dos valores humanos, demonstrando que eles funcionam como princípios orientadores que transcendem situações específicas e guiam a avaliação de eventos, pessoas e ações (SCHWARTZ, 2012). Milton Rokeach demonstrou que sistemas de valores estruturam crenças e atitudes de forma relativamente estável ao longo do tempo (ROKEACH, 1973). Stephen Covey, no campo do desenvolvimento pessoal, enfatizou que viver em alinhamento com princípios fundamentais é a condição para a integridade pessoal, e a integridade é a base da confiança (COVEY, 1989).

No método, o conceito de "pedestais" representa aqueles valores que sustentam o indivíduo mesmo diante das maiores pressões: os que não se negociam. Identificá-los é um trabalho de profundidade e honestidade, pois frequentemente o que declaramos valorizar não coincide com o que, de fato, guia nossas escolhas.

O desenvolvimento desse pilar tem impacto direto sobre a cultura organizacional: equipes cujos membros conhecem e vivem seus valores têm relações mais autênticas, tomam decisões mais éticas e constroem ambientes de maior confiança mútua.

6.4 Pilar 4: Comunicação & Relações

Toda organização existe por meio de relações e toda relação existe por meio da comunicação. A qualidade das interações humanas em um ambiente organizacional determina, em grande medida, a qualidade dos resultados que esse ambiente produz.

Daniel Goleman demonstrou que a inteligência emocional, especialmente as competências de autoconhecimento emocional, empatia e gestão de relacionamentos, é um preditor mais robusto de desempenho e liderança efetiva do que o quociente intelectual (GOLEMAN, 1995). Marshall Rosenberg, com o desenvolvimento da Comunicação Não Violenta, propôs que a qualidade da comunicação está diretamente relacionada à capacidade de observar sem julgar, expressar necessidades de forma clara e escutar com empatia genuína (ROSENBERG, 2006).

Chris Argyris mostrou que padrões de comunicação defensivos, aqueles em que as pessoas dizem o que acreditam que os outros querem ouvir em vez do que realmente pensam, criam "rotinas defensivas" que bloqueiam o aprendizado organizacional e perpetuam conflitos não resolvidos (ARGYRIS; SCHÖN, 1978).

O desenvolvimento desse pilar não se limita à aquisição de técnicas de comunicação. Ele trabalha os padrões relacionais profundos que determinam como o indivíduo se posiciona nas relações: se tende ao silêncio ou à imposição, se busca conexão ou proteção, se consegue dizer o que pensa de forma assertiva sem ferir o outro.

6.5 Pilar 5: Tomada de Decisão Consciente

Decidir é inerente à existência humana. Em ambientes organizacionais, decisões acontecem o tempo todo e sua qualidade impacta diretamente os resultados, as relações e a cultura. O problema é que grande parte das decisões humanas não é resultado de raciocínio deliberado, mas de processos automáticos, vieses cognitivos e reações emocionais não reconhecidas.

Herbert Simon introduziu o conceito de racionalidade limitada, demonstrando que as decisões humanas são sempre condicionadas por limitações de informação, tempo e capacidade cognitiva (SIMON, 1979). Daniel Kahneman aprofundou essa compreensão ao identificar dois sistemas de pensamento: o Sistema 1, rápido e intuitivo, e o Sistema 2, lento e analítico. A maioria das decisões é tomada pelo Sistema 1, o que significa que estamos frequentemente decidindo com base em atalhos mentais e vieses não examinados (KAHNEMAN, 2012).

Para Peter Drucker, a tomada de decisão eficaz é uma das competências centrais da liderança e da gestão. Não se trata de decidir mais rápido, mas de decidir com maior consciência: conhecendo os próprios padrões decisórios, identificando os valores que estão em jogo e assumindo responsabilidade pelas consequências (DRUCKER, 1967).

O desenvolvimento desse pilar amplia a capacidade do indivíduo de pausar antes de reagir, identificar os fatores que estão influenciando sua escolha e alinhar suas decisões com seus valores e propósito, tornando o processo decisório menos impulsivo e mais intencional.

6.6 Pilar 6: Hábitos & Práticas

O sexto pilar parte de uma premissa simples e profunda: somos, em grande medida, aquilo que fazemos repetidamente. A transformação humana que permanece é a que se consolida em comportamentos cotidianos, não a que fica no nível da compreensão intelectual.

B. F. Skinner demonstrou que comportamentos são influenciados e moldados por processos de reforço positivo e negativo (SKINNER, 2003). Charles Duhigg, em O Poder do Hábito, revelou a estrutura neurológica dos hábitos: gatilho, rotina e recompensa. Esse ciclo, uma vez instalado, opera de forma praticamente automática, o que significa que mudar um hábito exige intervenção consciente sobre cada um desses elementos (DUHIGG, 2012). James Clear, em Hábitos Atômicos, demonstrou que pequenas mudanças consistentes, acumuladas ao longo do tempo, produzem transformações muito mais profundas do que grandes mudanças abruptas (CLEAR, 2019).

No contexto do método, hábitos e práticas não são tratados como ferramentas de produtividade. São entendidos como a expressão concreta dos valores, das decisões e da identidade do indivíduo. Um hábito não muda de forma sustentável sem que a pessoa compreenda por que quer mudá-lo e quem ela quer ser ao mudar.

É por isso que esse pilar vem depois dos anteriores: a mudança de comportamento é mais eficaz quando está ancorada em propósito, valores e decisão consciente.

6.7 Pilar 7: Integração & Consistência

O sétimo pilar é o que confere ao método seu caráter verdadeiramente sistêmico. Integração e Consistência representam a capacidade de alinhar, de forma coerente e sustentada, os pensamentos, os valores, as relações, as decisões e as práticas. É o pilar que pergunta: tudo isso que você desenvolveu nos pilares anteriores, você consegue vivê-lo de forma integrada no cotidiano?

Peter Senge descreve organizações como sistemas interdependentes onde as partes não podem ser compreendidas de forma isolada. O mesmo se aplica ao ser humano: os sete pilares formam um sistema, e é na integração entre eles que o desenvolvimento se consolida (SENGE, 2013). Argyris e Schön enfatizaram que a aprendizagem organizacional mais profunda exige que as pessoas reflitam sobre seus próprios padrões de pensamento e ação, o que é precisamente o que esse pilar promove (ARGYRIS; SCHÖN, 1978). Edgar Morin complementa ao afirmar que fenômenos humanos exigem compreensão que acolha a complexidade, a contradição e a multidimensionalidade, e não a redução a partes isoladas (MORIN, 2003).

No plano individual, a consistência é o que transforma intenção em resultado. Uma pessoa pode ter clareza sobre seus valores e, ainda assim, agir de forma contraditória. Pode ter desenvolvido habilidades de comunicação e continuar se fechando nos momentos de conflito. A inconsistência entre o que se pensa, o que se sente e o que se faz é uma das principais fontes de desgaste psicológico e relacional.

O desenvolvimento desse pilar trabalha justamente essa lacuna, tornando o indivíduo cada vez mais capaz de ser, nas palavras mais simples, o mesmo em público e em privado. Profissionalmente, isso se traduz em confiabilidade, maturidade e presença consistente.

7. Mapa teórico: relação entre pilares e referências

Quadro 2 – Fundamentos teóricos por pilar do método

Pilar Dimensão Autores de Referência Contribuição Teórica Central
Essência & Propósito Autoconhecimento e identidade Carl Rogers; Jean-Paul Sartre; Viktor Frankl Consciência de si, liberdade existencial e busca de sentido como bases do desenvolvimento humano.
Limites & Influências Consciência do contexto social e psicológico Kurt Lewin; Albert Bandura; Edgar Schein O comportamento humano resulta da interação entre indivíduo e forças do ambiente social, cultural e organizacional.
Pedestais & Valores Inegociáveis Sistema de valores e ética pessoal Milton Rokeach; Shalom Schwartz; Stephen Covey Valores funcionam como princípios orientadores de decisões e comportamentos individuais e organizacionais.
Comunicação & Relações Interação humana e inteligência emocional Daniel Goleman; Marshall Rosenberg; Chris Argyris A qualidade da comunicação e da inteligência emocional determina a qualidade das relações e do aprendizado organizacional.
Tomada de Decisão Consciente Processo decisório e autorresponsabilidade Herbert Simon; Daniel Kahneman; Peter Drucker Vieses cognitivos e racionalidade limitada influenciam decisões; consciência decisória amplia a qualidade das escolhas.
Hábitos & Práticas Formação de comportamento e mudança B. F. Skinner; Charles Duhigg; James Clear Comportamentos são construídos e mantidos por ciclos de hábito; mudanças sustentáveis exigem intervenção consciente.
Integração & Consistência Desenvolvimento integral e aprendizagem contínua Peter Senge; Argyris & Schön; Edgar Morin Sistemas humanos e organizacionais são interdependentes; desenvolvimento sustentável exige integração de todas as dimensões.

Fonte: elaboração própria, a partir de contribuições da psicologia humanista, filosofia existencial e comportamento organizacional.

8. A interdependência dos pilares como princípio do método

Um dos elementos mais distintos do Método Essência e Movimento 360® em relação a outras abordagens de desenvolvimento é o princípio da interdependência sistêmica entre os pilares. Eles não são etapas de um funil linear. São dimensões de um mesmo sistema vivo, que se influenciam mutuamente em todas as direções.

Para compreender essa interdependência, considere alguns exemplos concretos:

Essa interdependência tem uma implicação metodológica importante: não existe uma "ordem certa" para trabalhar os pilares em termos de impacto, porque qualquer pilar que é desenvolvido cria reverberações nos demais. No entanto, existe uma lógica de profundidade: quanto mais sólidos forem os pilares internos (Essência, Limites, Valores), mais efetivo será o desenvolvimento dos pilares relacionais e comportamentais.

É essa estrutura sistêmica que distingue o método de abordagens que simplesmente ensinam técnicas, porque as técnicas, sem fundamento de consciência e valores, não sobrevivem ao retorno ao ambiente organizacional.

9. Implicações para o campo organizacional

O Método Essência e Movimento 360® parte do indivíduo, mas seu impacto é inevitavelmente coletivo. Organizações são compostas por pessoas que se relacionam, decidem, se comunicam e estabelecem padrões de comportamento. A qualidade dessas dinâmicas determina, em última instância, a qualidade da organização como um todo.

Quando o método é aplicado em contextos organizacionais, as transformações individuais produzem efeitos sistêmicos que se manifestam em:

Essa última implicação é especialmente relevante no contexto regulatório atual. A atualização da NR-01, que passou a exigir a identificação e gestão de riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), reconhece oficialmente que fatores como sobrecarga, conflitos relacionais, falta de clareza de papéis e baixa segurança psicológica são riscos ocupacionais que precisam ser gerenciados.

O Método Essência e Movimento 360® atua diretamente nas causas raiz desses riscos, e é nesse alinhamento que reside um dos seus diferenciais mais significativos para as organizações contemporâneas.

Em síntese, o método propõe que o desenvolvimento humano nas organizações não é um benefício acessório ou uma ação de bem-estar. É uma estratégia de gestão que reduz riscos, fortalece a cultura, melhora resultados e sustenta o crescimento de longo prazo.

Referências

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BRUNI, A. L.; TURRIONI, J. B.; STANO, R. C. M. Avaliação da Eficácia dos Programas de Treinamento e Desenvolvimento. São Paulo: Atlas, 2005.

CHIAVENATO, I. Gestão de Pessoas: O Novo Papel dos Recursos Humanos nas Organizações. 4. ed. São Paulo: Manole, 2014.

CHIAVENATO, I. Introdução à Teoria Geral da Administração. 7. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2003.

CLEAR, J. Hábitos Atômicos: Um Método Fácil e Comprovado de Criar Bons Hábitos e se Livrar dos Maus. Rio de Janeiro: Alta Books, 2019.

COVEY, S. R. Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes. Rio de Janeiro: Best Seller, 1989.

DRUCKER, P. F. O Executivo Eficaz. São Paulo: Pioneira, 1967.

DUHIGG, C. O Poder do Hábito: Por que Fazemos o que Fazemos na Vida e nos Negócios. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

FELDMAN, R. S. Introdução à Psicologia. 10. ed. Porto Alegre: AMGH, 2013.

FRANKL, V. E. Em Busca de Sentido: Um Psicólogo no Campo de Concentração. 35. ed. Petrópolis: Vozes, 2008.

GOLEMAN, D. Inteligência Emocional: A Teoria Revolucionária que Redefine o que é ser Inteligente. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995.

KAHNEMAN, D. Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

LEWIN, K. Field Theory in Social Science. New York: Harper & Row, 1951.

MORIN, E. O Método: A Natureza da Natureza. Porto Alegre: Sulina, 2003.

ROBBINS, S. P. Comportamento Organizacional. 11. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2005.

ROGERS, C. R. Tornar-se Pessoa. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

ROKEACH, M. The Nature of Human Values. New York: Free Press, 1973.

ROSENBERG, M. B. Comunicação Não Violenta: Técnicas para Aprimorar Relacionamentos Pessoais e Profissionais. São Paulo: Ágora, 2006.

SARTRE, J.-P. O Existencialismo é um Humanismo. São Paulo: Vozes, 2014.

SCHEIN, E. H. Cultura Organizacional e Liderança. São Paulo: Atlas, 2009.

SCHWARTZ, S. H. An Overview of the Schwartz Theory of Basic Values. Online Readings in Psychology and Culture, 2012.

SENGE, P. M. A Quinta Disciplina: Arte e Prática da Organização que Aprende. 29. ed. Rio de Janeiro: Best Seller, 2013.

SIMON, H. A. Comportamento Administrativo. Rio de Janeiro: FGV, 1979.

SKINNER, B. F. Ciência e Comportamento Humano. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

VECCHIO, R. P. Comportamento Organizacional: Conceitos Básicos. São Paulo: Cengage Learning, 2008.

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